Blog da Simara Araújo

Notícia com responsabilidade a toda hora

A FRIEZA QUE CORRE ENTRE NÓS – Por um jornalismo que ainda acredita em humanidade

José Silva Nogueira, 48 anos, corredor experiente, alguém que carregava na rotina o hábito de transformar quilômetros em bem-estar, caiu morto no último domingo em uma corrida de rua em João Pessoa. Morreu ali, no asfalto quente, no meio da multidão que deveria simbolizar saúde, superação e por que não? humanidade.

Mas o que chocou o país não foi apenas a morte repentina. Foi a reação. Ou melhor: a não reação.

Nos vídeos que inundaram as redes sociais, a cena é de gelar mais que qualquer autópsia: José desaba. Ao redor, dezenas de corredores seguem como se desviando de um cone, de uma garrafa caída, de um obstáculo trivial. Olham para seus relógios esportivos, ajustam o pace, e continuam. Nada de espanto. Nada de compaixão. Nada de humanidade.

A pressa venceu. O tempo venceu. O ego venceu.

A assessoria do evento afirmou que José era experiente e que recebeu atendimento. Mas a pergunta que deveria soar mais alto que a buzina da largada é: quando paramos de olhar para o lado? Ninguém parou!!!

A corrida de rua, esse símbolo tão celebrado de superação, virou palco da mais pura indiferença. Uma vitrine de corpos disciplinados, equipados com roupas de marca, relógios inteligentes, fones ultramodernos mas com o coração cada vez menos capaz de sentir.

Corremos para sermos melhores, dizem. Mas melhores para quem? Para quê?
Que evolução é essa que permite que um homem caia morto e ninguém pare?

Enquanto José tombava, muitos ali seguiam como máquinas programadas para não perder segundos. Afinal, segundos custam “performance”. Custam o print perfeito. Custam a vaidade alimentada nas redes. Custam o troféu imaginário da melhor versão de si mesmos aquela que vale mais que a vida de outro ser humano.

Não é apenas sobre esportistas. É sobre todos nós. Sobre um mundo onde a morte na nossa frente incomoda menos do que interromper o ritmo. Um mundo em que a empatia virou um luxo, e parar para ajudar virou atraso.

A frieza não é metáfora. Ela é tão real quanto o corpo de José estirado no chão.

Do blog: Este post não foi uma crítica ao ato esportivo e sim a nossa frieza e humanidade.

cesinha cesar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao topo